Atividade recua de forma disseminada e Fiesp revisa para baixo as projeções do PIB de 2026 e 2027
A Fiesp divulgou a edição de outubro de seu relatório Cenário Econômico . Os indicadores já conhecidos sinalizam recuo da atividade no terceiro trimestre: a estimativa da entidade aponta queda de 0,4% do PIB. A fraqueza é disseminada e atinge com mais força os setores mais sensíveis aos juros e ao c
A Fiesp divulgou a edição de outubro de seu relatório Cenário Econômico. Os indicadores já conhecidos sinalizam recuo da atividade no terceiro trimestre: a estimativa da entidade aponta queda de 0,4% do PIB. A fraqueza é disseminada e atinge com mais força os setores mais sensíveis aos juros e ao crédito.
Diante desse quadro, a Fiesp revisou suas projeções de crescimento do PIB de 1,9% para 1,7% em 2026 e de 1,1% para 0,9% em 2027. O cenário de 2027, porém, pode mudar com a implementação de um ajuste fiscal crível e duradouro.
Cenário global: petróleo e juros
Com ataques houthis a instalações sauditas e ataques a petroleiros em Ormuz, a nova escalada no Golfo levou o Brent para perto de US$ 105 por barril, pressionando combustíveis e fretes. O Federal Reserve elevou os juros em 0,25 p.p., para 3,75% a 4,00% ao ano, e o título do Tesouro americano de dez anos atingiu 5,31%, o maior nível desde 2002. O FMI elevou a projeção de crescimento global em 2026 de 3,0% para 3,1%.
Atividade e indústria
A produção industrial caiu 0,6% em agosto, a maior queda para o mês desde 2022, e acumula perda de 3,4% desde maio. Em setembro, o Sensor Fiesp recuou para 44,4 pontos, o menor nível desde maio de 2020. Abaixo de 50 pontos, o indicador sinaliza retração da atividade da indústria paulista, e todos os seus componentes ficaram nesse campo, com destaque para emprego (42,7) e investimentos (44,4). A Fiesp projeta queda de 0,4% da produção física da indústria de transformação em 2026. O varejo vem perdendo dinamismo desde o segundo trimestre, com recuo nos segmentos mais sensíveis ao crédito, e o volume de serviços está estagnado ao longo do ano.
Emprego, crédito e endividamento
O mercado de trabalho ainda sustenta a renda: a taxa de desemprego ficou estável em 5,4% em agosto, e o rendimento real voltou a crescer. A geração de vagas formais, no entanto, somou 1,13 milhão de janeiro a agosto, queda de 25,2% em relação ao mesmo período de 2025.
Com juros elevados, crescem as linhas emergenciais, como o rotativo do cartão e o cheque especial: entre abril e agosto, subiram 1,9%, enquanto as demais concessões às famílias caíram 2,5%. Com quase 30% da renda comprometida com dívidas, a inadimplência das famílias está em máxima histórica, e a das empresas, no maior nível desde 2018.
Inflação e juros
A expectativa para o IPCA de 2026 passou de 3,91%, em fevereiro, para 5,22%. Para a alimentação no domicílio, a expectativa passou de 3,52% para 7,19%, diante do risco de um El Niño muito forte no fim do ano. A Selic está em 13,75% ao ano, e o mercado projeta 13,25% no fim de 2026 e 12,00% no fim de 2027.
Perspectivas
Em 2026, a indústria extrativa, os estímulos à demanda e o mercado de trabalho sustentam a atividade, mas não compensam os juros elevados, o endividamento das famílias, pressionado também pelas apostas on-line, as tarifas dos EUA e as tensões geopolíticas. Para 2027, pesam os juros ainda altos, a desalavancagem das famílias e o fim do impulso gerado por programas adotados no período eleitoral.
Esse cenário, porém, pode mudar. A execução de uma agenda fiscal logo no início do próximo governo funcionaria como gatilho de um ciclo virtuoso: melhora no preço dos ativos (juros, bolsa e câmbio) e retomada da confiança de empresas e famílias, o que destravaria investimentos engavetados e estimularia o crédito e o consumo.
Nesse caso, a taxa Selic poderia chegar a um dígito entre 2028 e 2029, cenário que hoje não está contemplado, e o crescimento aceleraria principalmente na segunda metade de 2027, com o PIB em ritmo anualizado próximo de 3%. A retomada seria liderada pelos investimentos, com efeitos mais nítidos no PIB de 2028. Os juros dos títulos americanos de dez anos, perto de 5%, no entanto, limitam quedas mais expressivas dos juros domésticos.
Confira a íntegra do relatório Cenário Econômico Outubro/2026.